A diferença entre controlar e criar
(Da série: Pequenas reflexões sobre o fazer e o viver)
| Diário Artesanal Vintage Elegance |
Querido Diário,
Há, no ofício de encadernar, uma pequena lição que não se aprende nos livros.
Começamos uma peça com alguma certeza. Levamos um bom tempo escolhendo o papel, separamos os tecidos, medimos a capa, preparamos os fios... Temos diante dos olhos uma ideia e, por alguns instantes, acreditamos saber exatamente como ela deverá terminar! Mas o trabalho manual tem seus caprichos...
É o papel que dobra ou se colore de um modo inesperado, a estampa que encontra a capa de uma maneira que não havíamos imaginado, a linha que pede outra tensão... Voilà! Um pequeno detalhe, que parecia inconveniente, acaba por dar à peça justamente aquilo que lhe faltava, tornando-a única e autêntica. Nesse momento, percebemos claramente a diferença entre controlar e criar.
Controlar é desejar que tudo obedeça ao plano pré-estabelecido.
Criar é saber escutar o que o próprio trabalho nos apresenta.
Mas olha, isso não significa abandonar o cuidado, nem fazer as coisas de qualquer maneira, pelo contrário. O artesão mede, observa, corrige e recomeça quando necessário. Aqui estabelecemos uma espécie de conversa delicada entre a mão e a matéria. :)
Ao longo do processo, que muitas vezes é longo, é comum que façamos várias reflexões e paralelos mentais com temas do cotidiano. E é engraçado como a vida é igualmente pouco afeita a obedecer fielmente aos nossos planos. Fazemos projetos, traçamos caminhos, imaginamos datas e resultados. E, não raro, alguma coisa sai do lugar. É uma porta que não se abre, uma demora que não esperávamos, uma mudança de direção... Tudo ensina sobre adaptação e flexibilidade.
Nem sempre podemos escolher o que chega à nossa mesa, mas podemos escolher o que faremos com aquilo. Uma folha, sozinha, é apenas uma folha. Reunida a tantas outras, costurada, protegida por uma capa, pode guardar cartas, desenhos, lembranças e pensamentos durante muuuitos anos. Portanto:
💡Criar é mais sobre participar conscientemente da transformação da matéria do que propriamente exercer o domínio absoluto sobre ela.
A EncaderNós me ensina esse princípio todos os dias. Gostamos de fazer as coisas devagar, com as mãos, respeitando a consciência sutil e discreta das coisas que não se deixam controlar inteiramente.
Há, sim, beleza no que planejamos com cuidado, com base em tantas técnicas e inspirações lindas disponíveis em nosso campo de aprendizagem. Mas há também beleza, por vezes até maior, naquilo que o caminho acrescenta ao nosso plano.
A gente aceita, trabalha e agradece!
Com carinho,
Regina Souza da
EncaderNós


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